Desemprego baixo nos EUA: vitória política de Trump

Depois de seis meses estacionado no já invejável patamar de 4,1%, o desemprego nos Estados Unidos caiu em abril para 3,9%. É o menor índice desde dezembro de 2000, durante o segundo mandato do presidente Bill Clinton. Uma boa notícia para o presidente Donald Trump e seu Partido Republicano, que disputam eleições em novembro para renovar toda a Câmara dos Deputados e um terço do Senado.

A diminuição do desemprego não veio acompanhada de aumento expressivo nos salários. De um lado, isso indica que o avanço lento no poder de compra do trabalhador americano — em grande medida associado à piora na qualidade do emprego — permanece, apesar de os empresários terem de se esforçar mais para preencher as vagas.

De outro, significa menos pressão inflacionária e menor necessidade de elevar os juros. Para países emergentes como o Brasil e a Argentina, é um alívio: os investidores não terão tanta pressa de se deslocar na direção dos papéis americanos, atraídos por juros mais altos acompanhados de maior segurança. E esses países têm mais espaço para reduzir os próprios juros, uma vez mantidas todas as outras condições.

A pesquisa mensal por amostragem do Bureau of Labor Statistics (BLS), ou Escritório de Estatísticas do Trabalho, que não inclui o setor agropecuário, indica que foram gerados 164 mil empregos urbanos em abril.

Entretanto, o número de desempregados caiu de 6,585 milhões, em março, para 6,346 milhões, em abril — ou seja, uma diferença de 239 mil. À criação de vagas se juntou outro fator: um número menor de pessoas procurando emprego. Só que essas pessoas deixaram de procurar empregos não por acreditar que não encontrariam — o chamado “desalento”. Quando se inclui taxa de desalento, o índice de desemprego caiu de 8% para 7,8%.

Há menos pessoas procurando emprego porque a chamada geração de baby boomers, nascida no período de euforia do pós-2.ª Guerra, entre 1947 e 1961, está se aposentando. Desde então, o crescimento populacional nos EUA está se desacelerando. Então, menos pessoas chegam ao mercado de trabalho do que as que saem.

A chamada população economicamente ativa está encolhendo. Ela passou de 62,9% da população total em março para 62,8% em abril: redução de 236 mil pessoas. Só isso já contribui para que o índice de desemprego caia, se mantidas todas as outras condições.

O desemprego vem caindo desde a crise financeira de 2008/2009. Em julho de 2009, chegou a 6,7%. Ele é estruturalmente baixo nos EUA por causa da flexibilidade das leis trabalhistas, que facilita a abertura de vagas, porque os empresários podem contratar por tempo determinado, sem ônus extras, e com baixos custos trabalhistas. Isso também acontece no Reino Unido (4,2% de desemprego).

Já na Itália (11%), Espanha (16,7%) e Brasil (13,1%), por exemplo, o desemprego é estruturalmente alto, pela razão inversa. A Alemanha, no governo de Gerhard Schröder (1998-2005), fez reformas trabalhistas nessa direção e reduziu seu desemprego (hoje em 5,3%), e é o que a França tem feito nos últimos anos também (8,9%, e caindo). Dezenas de milhares de trabalhadores ocuparam as ruas em Paris no Primeiro de Maio para protestar contra isso.

O valor médio pago pela hora de trabalho nos EUA aumentou apenas 4 centavos de dólar entre março e abril, passando para 26,84 dólares. Os salários anuais subiram em média 2,6% em abril, quando no mês anterior o índice tinha sido de 2,7%. Nos últimos dois anos, a média foi de 2,5%.

De posse desse dado foi que o Federal Reserve, o Banco Central americano, decidiu na quarta-feira não aumentar o juro. E ainda comentou que a inflação deve ficar dentro da “meta simétrica” de 2% no médio prazo.

A inflação está em 2,2%. Mas o Fed leva mais em conta o índice de consumo pessoal, excluídos alimentos e energia (por causa de sua maior variação). Nessa lista, os preços subiram 1,9% nos 12 meses até março, ante 1,6% até fevereiro.

Mas a mensagem do Fed para o mercado foi que ele não vê pressão inflacionária suficiente para acelerar o aumento do juro. Ele foi elevado pela última vez em março, para 1,75%. Portanto, continua negativo em termos reais, considerando a inflação de 2,2%. O mercado espera que o Fed ainda aumente o índice duas vezes este ano.

“O mercado de trabalho está tão apertado que as firmas estão tendo tremenda dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados e disponíveis”, observa Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM, uma rede multinacional de escritórios de contabilidade.

Há 1,1 desempregado por cada vaga oferecida, mas essa relação não conta toda a história. É apenas uma média numérica. Os empregos disponíveis não estão necessariamente no mesmo lugar em que os trabalhadores os estão procurando. Eles podem migrar, como de fato migram, sobretudo nos EUA. Mas podem não estar qualificados para as vagas oferecidas. Ou podem simplesmente desejar um emprego melhor.

Do ponto de vista das empresas, há um grande problema estrutural: a falta de mão de obra capacitada. A consultoria Deloitte calcula que surgirão 3,5 milhões de vagas na indústria americana entre 2015 e 2025. Desse total, 2,7 milhões serão abertas por causa da aposentadoria dos baby boomers. Faltarão 2 milhões de trabalhadores capacitados. Os empregos surgem em áreas que requerem novas especializações, como produtos feitos com impressão 3D e fabricação digital.

De acordo com o relatório do BLS, das 164 mil vagas geradas, 24 mil foram na indústria. Na mineração, outras 8 mil. Já em “serviços profissionais e de negócios”, 54 mil; em atendimento à saúde, 24 mil. A variação foi pequena na construção civil, nos comércios atacadista e varejista, transporte e armazenamento, atividades financeiras, lazer e hotelaria e no setor público.

O cobiçado emprego industrial, pelo menos o tradicional, está cada dia mais difícil. E isso, segundo estudos do Peterson Institute for International Economics, de Washington, tem muito mais a ver com a automação do que com o livre comércio, atacado por Trump.

Um caso emblemático recente foi o da Foxconn. A empresa taiwanesa, que emprega 1 milhão de pessoas na China, onde fabrica a maior parte dos computadores consumidos no mundo, anunciou que construiria uma fábrica no Estado do Wisconsin. A nova planta, que empregará 13 mil pessoas, recebeu US$ 3 bilhões em isenções fiscais e subsídios do Estado, de um investimento total de US$ 10 bilhões. Ou seja, cada emprego vai custar US$ 231 milhões aos cofres estaduais.

Trump convocou em julho uma coletiva para alardear o fato: “Todo mundo queria a Foxconn. Francamente, eles não iam vir para este país. Odeio dizer isso, mas se eu não tivesse sido eleito, eles não estariam neste país”. A conta sobre o custo de cada emprego não foi feita.

A produção industrial americana mais do que dobrou em termos reais desde o governo de Ronald Reagan (1980-88). Hoje, ela soma US$ 2 trilhões ao ano. A produtividade aumentou 47% entre 2002 e 2015. Levantamento com executivos feito pela Deloitte mostra que a indústria americana espera ficar mais competitiva do que a chinesa nos próximos anos, por causa do aumento dos salários na China. Tudo isso se deve aos investimentos em automação, a grande vilã do emprego industrial.

Entretanto, os ganhos de produtividade podem ter chegado a um limite. A economia americana tem criado 170 mil vagas por mês, ou um pouco menos, como no caso de abril. Mas a população entre 20 e 64 anos cresce 50 mil por mês. Com a falta de mão de obra qualificada e o envelhecimento da população, a produção não tem como aumentar muito. Por isso a injeção de dinheiro na economia causada pela redução dos impostos, na reforma tributária aprovada por Trump no Congresso em dezembro, não vem em boa hora. Há um risco de super-aquecimento da economia.

Segundo cálculos, um crescimento sustentável com o atual ritmo de envelhecimento da população está na casa dos 2%, não 3%, como parece ser o novo objetivo de Trump. Ele prometeu 4% na campanha. Em 2017, foi de 2,3%. A menos que a produtividade aumente, o crescimento precisa diminuir.

O Fed está mantendo o ritmo gradual de aumento do juro com base na estimativa de que o desemprego estará em 3,8% no fim do ano. Se já baixou para 3,9% em abril, pode diminuir mais depressa do que a projeção do Fed. Nesse caso, o juro pode também subir mais rapidamente.“Eles têm pouco espaço de manobra”, analisa Ian Shepherdson, economista-chefe da consultoria Pantheon Macroeconomics. Mas essas equações não entram nos cálculos eleitorais. No curto prazo, as manchetes são positivas. E é isso que importa para os políticos.

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