França fortalece presença militar em área do Mar da China disputada por Pequim

A França aposta em uma cartada diplomática militar para preservar seus interesses no Mar da China Meridional, uma região que a China tenta controlar apesar da oposição de países vizinhos, dos Estados Unidos e de uma arbitragem internacional contrária às pretensões territoriais de Pequim.

O navio de projeção e comando francês Dixmude, escoltado por uma fragata, cruzou o Mar da China Meridional no final de maio para coletar informações de inteligência sobre as manobras chinesas para dominar o corredor de navegação por onde passa um terço do comércio mundial. O Dixmude é um porta-helicópteros polivalente, com bases de comando móveis e que pode ser utilizado inclusive como hospital naval.

A tática de Pequim para se impor nessa região estratégica do planeta, apesar dos protestos de Brunei, Malásia, Filipinas e Vietnã, tem sido construir instalações em ilhotas e recifes, como nas ilhas Spratley, onde os americanos também condenam o reforço da presença militar chinesa.

O comandante do Dixmude, Jean Porcher, conta que a patrulha pôde passar perto dessas ilhotas e recolher dados de inteligência por meio de sensores autorizados em águas internacionais. O comandante disse que os contatos feitos com os militares chineses presentes na área foram “amigáveis”.

Em agosto, a França também realizará uma missão aérea sem precedentes no sudeste da Ásia (“Pegase”): três aviões de caça Rafale, um avião de transporte militar A400M, um A310 e um aparelho de reabastecimento voarão da Austrália para a Índia, fazendo várias escalas em países parceiros para “ajudar a fortalecer a presença da França nesta área de interesse estratégico”.

O posicionamento francês na região foi apresentado pelo presidente Emmanuel Macron durante uma visita à Austrália em abril: “construir um eixo Indo-Pacífico” para “reforçar a liberdade de navegação e o tráfego aéreo”, sem agir contra Pequim, mas para evitar uma “hegemonia”. As observações de Macron estão em sintonia com as preocupações dos aliados regionais da França diante da crescente influência da China no Pacífico.

Grande mercado de exportação

“O presidente Macron parece estar analisando realisticamente o desafio chinês – uma mudança bem-vinda em comparação com seus antecessores, que foram cativados pelas oportunidades de negócios na China”, avalia Jonas Parello Plesner, especialista americano no Instituto Hudson ouvido pela AFP.

A postura de Paris começou a evoluir há alguns anos. Desde 2014, a França envia regularmente navios de patrulha ao Mar da China Meridional para marcar seu compromisso com a liberdade de navegação. Em 2016, o então ministro francês da Defesa, Jean-Yves Le Drian, atualmente chanceler, convidou as marinhas europeias a marcar “uma presença tão regular e visível quanto possível nas áreas marítimas da Ásia”.

Além de negar o “fato consumado”, que poderia colocar em risco todo o sistema internacional do direito marítimo, Paris destaca sua condição de país ribeirinho, com 1,5 milhão de cidadãos na região do Indo-Pacífico, residentes em cinco territórios ultramarinos e seus 9 milhões de quilômetros quadrados de zona econômica exclusiva. “Esta região também é nossa casa”, disse a ministra das Forças Armadas, Florence Parly, no início de junho, em Cingapura.

“Até então, havia a impressão que apenas os Estados Unidos estavam envolvidos na área”, comenta Valerie Niquet, especialista em Ásia-Pacífico na Fundação para Pesquisa Estratégica (FRS). A marinha americana conduz regularmente operações chamadas “Liberdade de Navegação” no Mar do Sul da China. “Obviamente, são os Estados Unidos que desempenham um papel essencial de dissuasão contra a China, mas não é inútil ou insignificante que uma potência como a França, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, esteja firmemente posicionada em termos de princípios e implemente ações concretas”, acredita a especialista. Segundo ela, “isso permite diminuir a legitimidade e marginalizar um pouco mais as posições chinesas”.

A França fechou nos últimos anos vários contratos de venda de armas nessa região, envolvendo forte cooperação militar com a Índia (36 caças Rafale) e a Austrália (12 submarinos). “Provavelmente, isso também motiva o governo francês a ser muito mais firme em temas que, até recentemente, eram abordados com mais cautela”, diz Valérie Niquet.

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